sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Boas Festas!

Boas!
Ando distante do meu blog por problemas na gerência do meu tempo. Porém eu não me esqueci. E é com pesar que também não tenho podido acompanhar os posts nos blogs que sigo! Mas não pude deixar de vir, mesmo sendo hoje um dia “especial”, para vos desejar UM BOM NATAL e uma ÓPTIMA ENTRADA NO NOVO ANO. ;)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Todos Iguais

Todos iguais.
Mudam as máscaras,
Mudam as actuações,
Mudam as línguas e até as cores.
Mas são todos iguais,
Bons ou maus,
De uma maneira ou outra,
Maneiras similares,
Monotonia absurda.

Mudar jamais,
Sempre as mesmas caras,
Sempre pintados os corações,
Sempre manchados de dores.
Mas são todos iguais,
Bons ou maus,
De uma maneira ou outra,
Maneiras similares,
Monotonia absurda.

Se diferem os estilos,
Avalanches de pensamentos,
Teorias delambidas,
Ignorância sortuda.
Mas são todos iguais,
Bons ou maus,
De uma maneira ou outra,
Maneiras similares,
Monotonia absurda.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Fearno




Abre os olhos com cuidado,
Bem devagarinho…
Um mundo novo e assustado,
Já não ocorre de mansinho.

Olha para trás e verifica as tuas pegadas,
É melhor apagá-las para que não te sigam,
Porque se espreitares sobre o teu ombro,
Conseguirás ver as silhuetas que se sentem ameaçadas,
Elas continuam a ver se te encontram.

Sentes o peso do teu sono?
Não te deixes de dormir,
Qualquer que seja o tipo de abandono,
A tua consciência jamais poderá ir.

Não deixes a tua retaguarda à descoberta,
Não deixes que pousem os olhos em ti,
Mantém-te sempre alerta,
E confia unicamente em ti.

Consegues sentir o cheiro?
Forte e intenso, que se mistura no ar.
Qualquer um que o liberte está despachado.
O medo é, incrivelmente fácil de identificar.
Não o deves demonstrar, mesmo quando pioneiro,
Pois isso será a chave para que fiques acabado.


sábado, 23 de outubro de 2010

Bruxsa

A noite nasceu na cidade, ingénua e fria. Banhando de negro o céu, alimentando as sombras, desenhadas em seus contornos. Ela deixou que o seu cabelo se soltasse. Negro e perfumado bailou ao longo de suas costas nuas. Os brilhantes olhos verdes vislumbraram aquela que poderia ser a sua próxima vítima. Um leve sorriso sombrio delineou-se nos seus lábios perfeitos. Ficou por alguns segundos, ali, parada. Então, curvou-se em direcção ao chão, tapando o seu corpo frágil com a longa cabeleira negra. E num pequeno rodopio de poeira, diversos espigões começaram a surgir em seus braços, transformando-se em aveludadas penas negras, e transformando-se em duas asas simétricas. Os seus olhos transformaram-se numa pequena circunferência verde-escura, ladeando um enorme círculo negro, brilhante. E aquela mulher sedutora tinha-se transformando num elegante corvo. Seu pequeno anel prateado era como uma anilha em sua pata, a única coisa que poderia ser associada à sua pessoa, para além daqueles olhos tão frios.

Uma criança, com pouco mais de um ano era visível de uma janela do último andar. Brincava distraidamente com um carrinho de plástico. Enquanto a ama adolescente se deliciava com um copo de gelado e uma novela qualquer, do outro lado da sala. Ela pousou sobre o gradeamento da varanda. Observando. A criança nem notou a sua presença, bem como a rapariga que estava sentada de costas para a janela.

Fixou os olhos no bebé. Emanando pequenas vibrações de carácter telepático.

“Vem até mim.” Dizia-lhe em pensamento. O bebé largou o carrinho, numa expressão séria. Demasiado séria para uma criança daquela idade. Colocou-se de joelhos, levantando-se sem dificuldade e caminhou em direcção à varanda. A ama não se apercebeu. A criança estava parada, com o olhar fixo no corvo, demasiado grande para ser um corvo normal. E o corvo saltou do gradeamento da varanda para o chão. Fixou seus olhos na fechadura da porta, num olhar muito penetrante e com um brilho sinistro. A porta deslizou silenciosamente.

“Vem a mim, pequeno.” Voltou a emanar em pensamentos. O menino caminhou até ao enorme corvo. Os braços caídos ao lado do corpo, rosto sério, olhos vazios mas fixos naquela criatura misteriosa. O pássaro negro abriu as suas grandes asas, erguendo-se à altura da criança. E com as suas garras, agarrou-a abruptamente pelos ombros, cravando-as de tal forma que a criança sangrou. Mas nenhuma reacção tomou. Hipnotizada, nada sentiu. A Ama continuava absorta na novela, não se apercebendo que estava sozinha. Com a porta da varanda aberta e um pequeno rasto de sangue que se perdia no gradeamento.

Na velha cidade escura, ninguém via que um enorme pássaro negro levava uma criança nas garras. Indo em direcção à zona pobre e mais mal iluminada. Numa casa simples e mal tratada, lá pousou. A criança adormecida foi colocada no chão.

A poucos metros de distância, voltou a definir-se uma figura feminina. O seu corpo curvilíneo procurou um leve vestido que estava pendurado num prego da parede. Caminhou em direcção ao corpo adormecido e pegou-o nos braços, como se de um filho seu se tratasse. Sangue continuava a escorrer pelo corpo da criança, manchando os ombros finos da mulher. Ela pareceu indiferente a esse facto. Em casa, deitou-o sobre a mesa central. Ligou a frágil luz da sua cozinha, a criança piscou os olhos, como se despertasse de um sono profundo. A mulher começou a cantarolar uma música da sua infância, enquanto procurava um alguidar de barro. A criança chorou ao ambiente estranho. Um choro ruidoso. A mulher olhou para ela, cantarolando um pouco mais alto. Aproximou-se, vagarosamente até estar junto ao rosto do menino. Seus olhos frente a frente com os da criança, a poucos centímetros de distância. O choro cessou.

- Agora vamos passar ao jantar. – Ela disse mais para si mesma, do que para a criança. Foi andando até ao alguidar de barro que estava sob a bancada da sua cozinha. Pegou numa enorme faca e colocou-a dentro do alguidar. Trazendo tudo para a mesa onde a criança estava deitada. Que olhava para ela com curiosidade. Os olhos verdes da mulher brilhavam com gulodice. Ela sentia a saliva aumentar na sua boca. Imaginava qual o seu sabor, qual a textura deste novo rebento. Pegou no seu cabelo, separando-o em três mechas e entrançou-o. Virou o corpo da criança de barriga para cima, esticando-a e prendendo os pés a duas fivelas que estavam num dos lados da mesa. Pegou nas mãozinhas da criança hipnotizada e também as prendeu. Depois, girou uma pequena alavanca, que fez com que a mesa ficasse um pouco inclinada. A criança não se moveu. Ela cantarolava, distraidamente, enquanto colocava o alguidar na direcção da mesa, da ponta que estava mais próxima do chão. Pegou na faca e aproximou-se dos pulsos do pequenino. Passou um dedo, sobre as veias saliente. Um leve sorriso iluminou a sua cara. E, num golpe preciso e rápido rasgou um dos pulsos. O cheiro a sangue depressa lhe invadiu as narinas. Era um perfume atordoante, quase hipnótico para ela. A criança não se moveu, estava estranhamente imóvel, olhando para o rosto da mulher, perdida nos seus olhos verdes. O sangue jorrou pelas fisgas da mesa, sendo escoado directamente para o alguidar. Ela levou a faca aos lábios, tocando ao de leve no sangue ainda quente que estava na lamina. Fechou os olhos por segundos e soltou um pequeno gemido de satisfação. Então apressou-se a saltar para o outro lado da mesa, e, desta vez num gesto ainda mais rápido, ela cortou o outro pulso do menino. Pousou a faca na mesa, vendo por alguns minutos o sangue a escorrer. Quando a criança começou a ganhar uma certa palidez no rosto, ela aproximou-se do seu pescocinho. Passou um dos dedos junto à jugular. Como era macia aquela pelezinha, pálida e frágil.

Abriu a boca, empurrando os seus lábios carnudos para trás, dentes salientes pareciam entesar-se para a frente. E como se de uma picada se tratasse, ela enfiou-os na carne tenra do pescocinho, sem qualquer dificuldade. Enormes jactos de sangue jorraram na sua boca. Sua língua quase parecia dormente pelo impacto daquele líquido aquecido. Seus olhos fecharam-se inconscientemente, naquele momento só existia ela e o sangue que bebia. O seu corpo era consumido por leves espasmos de prazer, de um rejuvenescimento silencioso e brutal. Quase que podia sentir sua pele a ficar mais lisa, suas unhas a enrijecerem-se suas pernas a fortalecerem-se. Era vida que entrava dentro dela. Era morte que ela trocava ao matar sua sede.

Então, como se despertasse de repente daquele acto de gula e brutalidade. Ela largou o pescocinho. Ela não podia ver, mas sabia que seus olhos estavam de um verde natural, saudável. Olhou para as suas mãos, parecia que uma nova camada de pele se tinha formado. Sua trança estava mais brilhante, mais forte. Assim, descontraiu seus lábios, encolheu as presas e voltou á sua dócil figura humana. A criança estava desmaiada, a um passo da morte. A mulher pegou na faca e aproximou-a da mordida, fazendo um golpe maior no pescoço. Não havia mais vida para aquele pequeno rebento.

Deixou escoar o sangue, por quase toda a noite. Limpou o seu rosto, belo e rejuvenescido. Ajeitou o seu cabelo e descansou sob uma cadeira. Olhando para o cadáver que tinha na mesa.

Pensava na vida, nos desafios que teria no dia seguinte que enfrentar no emprego. Noticias não iriam faltar, certamente. Depois pensou onde iria largar o cadáver. Teria que ser um local mais chocante, um local que desse uma história mais marcante. Ela não queria ver a jovem ama a ser acusada do assassinato do pequeno Dinis. Imaginem, uma mera adolescente a ser reconhecida por um assassinato tão limpo como aquele. Ela iria sentir-se ofendida pelo roubo de protagonismo. Lembrou-se assim de um local que não ia passar indiferente. E, que de certo, ficava bem para a história da cidade.

Quando faltava apenas uma hora para o nascer do Sol, ela ergueu-se da cadeira. Levou o corpo para a rua, despiu o vestido e pendurou-o no prego. Baixou-se para a sua transformação e pegou no cadáver. Voou para o topo da câmara municipal e deixou-o lá, bem á vista.

Uma pequena vingança de uma bruxa vampira rancorosa. Ela pensou.

No outro dia de manhã, ela chegou ao “Fonte Nova”, jornal citadino onde ela trabalhava como jornalista, e encontrou todos num alvoroço.

- Julieta! Temos a notícia do dia. – Falou um homem gorducho de um dos gabinetes, correndo apressadamente até ela. – O filho mais novo do presidente desapareceu ontem à noite. Quero que escrevas um artigo de duas páginas sobre isso. O Marcelo já está lá fora no carro à tua espera, arranjem-me pelo menos uma fotografia da família chorosa!

- Ok chefe. – Ela pegou no caderno de cima da sua secretária e colocou-o na malinha. Dando uma última olhadela ao seu chefe, pensou: Prometo arranjar boas fotos.

Um sorriso surgiu no seu rosto. Com um andar confiante foi em direcção à saída. A jornalista simpática do “Linhas Novas”, que com um sorriso cumprimenta os colegas todas as manhãs, leva uma vida dupla que jamais alguém descobrirá, apenas verá os seus artigos. As histórias horrendas de corpos que foram encontrados e que permanecem no mistério, mas que por qualquer motivo fascina aqueles que as lêem, dando-lhe uma carreira promissora.

Segundo a mitologia do vampiro, existe uma espécie de origem Portuguesa, os Bruxsa. Na sua maioria surgem sob a forma de uma mulher com beleza excepcional, que durante o dia leva uma vida perfeitamente normal, mas à noite adopta a forma de um enorme pássaro negro para procurar alimento, geralmente tem preferência por sangue jovem, crianças. Não há nenhuma forma conhecida de as destruir...
Inspirado em mais uma história/lenda aqui da terrinha, escrevi este conto, que apesar da falta de tempo, não pude deixar de o postar no TDMN.

sábado, 16 de outubro de 2010

A História Do Lobisomem (Parte IV) Final

Com o decorrer do tempo, com as narrações do povo. Curiosos que mal conseguiam explicar calmamente suas teorias, suas crenças encaixadas nas suas histórias do lobisomem. A população mais jovem começou a acreditar que o senhor Carmo era mesmo um lobisomem.

Certo dia, Matias deu de caras, novamente com o Lobisomem, junto ao minimercado.

- Olhem! É o Lobisomem! – Gritou. E começou a correr junto com os seus amiguinhos, estranhamente na direcção da casa do senhor Carmo.

O Senhor Carmo continuou indiferente, crianças e suas baboseiras nunca o incomodaram. Mas a caminho de casa, enquanto levava o pesado saco das compras na mão. Começou a ser abalroado por pequenas tangerinas, algumas já podres.

- Lobisomem! – Gritavam as crianças por detrás de um muro. – Vai para casa. Hoje não há Lua! – Irritado ele apressou o passo, praguejando baixinho.

- Pchhhht! – Disse um velho. – Mas que é isto? – Gritou para as crianças. – Então agora atiram tangerinas às pessoas! – Ralhou aos miúdos.

- Ele é um Lobisomem não é uma pessoa.

- Mas que disparate! – Gritou o velho. – Querem que eu vá contar aos vossos pais? – O velho esticou um dedo ossudo a Matias. – Olha que o teu pai dá-te um excerto de porrada igual ao daquele dia em que partiste a minha caixa do correio!

Matias saltou do muro e foi-se embora, começando a correr quando se apercebeu que o senhor Carmo olhava para ele cheio de fúria. As outras crianças foram atrás dele.

- Bom dia Carmo! – Cumprimentou o velho. – Não lhes ligue. Eles não passam de miúdos facilmente impressionáveis.

- Eu sei senhor Mendes. Se não eu não estaria aqui parado.

Não era novidade que o medo crescia por parte dos mais novos. Alguns miúdos quando tinham que passar por casa do Senhor Carmo, corriam por medo de que ele os visse e tentasse fazer alguma coisa. Os mais velhos estavam divididos. Pessoas mais entregues às suas crenças religiosas e tradições antigas de família tinham tanto medo do lobisomem como as crianças. Outros achavam simplesmente que não passavam de histórias tolas, inventadas por quem não tem nada que fazer.

Mas, independentemente das histórias, o que realmente incomodava a vizinhança eram as saídas a altas horas da noite com os cães, deixando diversos dejectos nos passeios da rua. Várias pessoas tiveram problemas de manhã ao dar com cocós junto às entradas das suas casas. Situação desagradável que levou a que os vizinhos se reunissem e votassem em alguém para falar com ele sobre o sucedido.

Não foi surpresa para ninguém quando o homem mais velho do bairro se ofereceu para falar com o senhor Carmo. O velho Mendes ergueu a sua mão esquelética e tremida como oferta a voluntário da proposta. Com alguma dificuldade caminhou até à entrada da enorme casa do senhor Carmo, com ares de antiga e misteriosa. Seus olhos fixaram-se nas enormes janelas fechadas, como se não houvesse lá ninguém, mas ele sabia que algures lá dentro havia um homem de pijama dormindo na sua cama. A moradia parecia abandonada, não fosse pelo canil ter tantos cães bem tratados.

Várias vizinhas, espreitavam de suas próprias janelas, vendo o homem de corpo tão frágil subindo os pequenos degraus. Elas não queriam acreditar como alguém tão frágil tinha tanta coragem em pisar sequer aqueles degraus.

Quando parou junto à porta carregou no botão da campainha, três vezes. Eram cinco horas da tarde e depressa apareceu o homem à porta, extremamente despenteado e em pijama abriu-lhe uma fisga da porta, apenas para espreitar.

- Boa tarde Carmo! – Disse o velho. – Vejo que te acordei. – O homem ensonado procurou abrir mais os olhos para ver melhor quem lhe falava. Ao ver a figura curvada de sorriso terno, endireitou-se e abriu a porta, de modo a que o pudesse ver melhor. O senhor Carmo era um homem robusto e alto, de aparência descuidada, não admirava as crianças terem medo dele.

- Boa tarde! Em que o posso ajudar?

- Bem. Estou aqui a pedido da vizinhança. Ali, os teus meninos têm deixado muitas recordações nas ruas e em algumas entradas. – Ele olhou atento para a zona do canil. – As pessoas estão um bocado incomodadas com a situação e gostariam que tivesses um pouco mais de cuidado e atenção com os cães.

- Compreendo. – Ele olhou para os cães, inexpressivo. – Terei mais cuidado da próxima vez. Eu realmente não me lembrei desse pormenor. Na minha outra casa eu não tinha que me preocupar com estas coisas.

- Vivia nalgum meio mais rural, algum monte?

- Sim. Eu vivia com o meu irmão no monte que herdámos de nossos pais. Lá para os lados de Arronches. – Ele sorriu, nostálgico. – Nós mantemos o monte e desenvolvemos um projecto no ramo do turismo rural. Mas depois ele casou e eu achei melhor mudar-me.

- Não me diga que é o monte do Vale do Lobo?

- É esse mesmo. – O velho riu, vendo alguma ironia no nome do monte e na história que dava fama ao homem que estava na sua frente.

- Tem tido bastante sucesso pelo que tenho ouvido. – O velho Mendes lembrando-se de um grupo de turistas ingleses que uma vez lhe perguntaram onde ficava o tal monte. – Você ainda trabalha lá?

- Às vezes. Vou lá ver como corre o negócio. Fico com parte dos lucros e contribuo na gestão. – Ele olhou novamente para os cães. – Mas por agora ando metido noutro ramo.

- Ai sim? – O velho mostrou-se interessado. – Isso tem a ver com as suas saídas nocturnas?

- Tem. – Carmo riu. – As crianças pensam que sou um lobisomem porque ando sempre com os cães atrás. Mas na verdade vou trabalhar. Sou caçador furtivo. – O sargento e o cadete voltaram a trocar olhares. – Vou à caça durante a noite e entrego as minhas caçadas em restaurantes da zona. – O sargento e o cadete começaram a rir-se.

- Como a imaginação das crianças é fértil. – Disse o cadete. Ele mesmo envergonhado de ter pensado que as actividades nocturnas do senhor Carmo eram de desconfiar.

A população ficou a saber, nessa mesma tarde que o senhor Carmo era caçador furtivo. Fazia sentido. Tal como o cadete Augusto muitos sentiram-se envergonhados por começar realmente a acreditar na história. Mas ainda assim, alguns não acreditaram, continuando a desconfiar do homem de aspecto descuidado, que sai quase todas as noites com a sua matilha. Acreditam que essa é apenas uma maneira de disfarçar as suas verdadeiras actividades nocturnas.

FIM

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A história do Lobisomem (part III)

Seguiram o senhor Carmo por alguns metros, sempre escondidos por detrás de árvores. Os cães pareciam fantasmas, correndo, farejando, sombras escuras que se moviam rapidamente. Em redor de uma outra sombra enorme, que de quando em quando se abaixava e tocava o chão.

- Mas que merda está ele a fazer? – Sussurrou aos outros o rapaz loiro. Com ar de gozo.

- Não faço a mínima. – Telmo observava-o atentamente. – Carlos tens aí alguma coisa que dê luz? – O rapaz loiro começou a procurar nos bolsos das calças.

- Tenho o isqueiro.

- Serve.

Quando o senhor Carmo se afastou, eles foram lentamente até ao local onde ele se tinha baixado da última vez. Telmo ligou o isqueiro e espreitou para o chão. Viam-se pequenas pegadas de um animal qualquer.

- O que é isso? – Perguntou o outro rapaz.

- Nunca foste à caça com o teu pai? – Telmo gozou.

- São pegadas de javali. – Apressou-se Carlos a responder.

- O gajo deve andar à procura de paparoca para o jantar. – Telmo brincou. Carlos riu com vontade. Jeremias, o outro rapaz, ficou sério. Uma palidez estranha penetrou no seu rosto. Os seus olhos estavam fixos em algo atrás de Telmo e Carlos. – O que foi?

Carlos levantou o braço, apontando para trás deles. Telmo, ainda com o isqueiro aceso virou-se. Um rosto traçado por sombras profundas, num efeito da fraca luz do isqueiro, parecia demasiado assustador para ser de um ser humano vivo. Telmo deixou cair o isqueiro. Saltando para trás, juntamente com Carlos.

- O que fazem aqui? – A voz do senhor Carmo era grave e rouca.

- Nós… – Começou por dizer Carlos, quase gaguejando.

- Viemos fumar. – Apreçou-se Telmo. Dando uma cotovelada a Carlos, que retirou um maço do bolso. – Ali, os pais do Jer não podem saber que ele fuma, por isso viemos para aqui. Qual o melhor local se não no olival, onde não deveria estar ninguém? – Embora o seu coração palpitasse anormalmente e suas pernas parecessem ir abaixo a qualquer momento, sua voz soava segura e confiante.

- Isto não é local nem horas para andarem nisso. – Parecia que a peta de Telmo tinha pegado O senhor Carmo soava calmo, embora a sua voz ainda parecesse um tanto assustadora. – Vão para casa. Vocês podem fumar ás escondidas noutro sítio. Aqui é perigoso!

- Sim, senhor. – Jerónimo respondeu, preparando-se para ir embora.

- E o senhor? Que faz aqui a estas horas? – Jeremias estremeceu ao ouvir a pergunta do amigo.

- Passear os cães. – Eles não acreditaram, olhando para o senhor Carmo com olhares questionadores, com excepção de Jeremias, cujos olhos eram uma demonstração de puro medo. – Aqui eles podem correr à vontade e fazer o que têm a fazer. Por vezes até encontram animais para seguir e brincam um pouco. – Carlos trocou um olhar com Telmo, um sinal para se irem embora.

- Boa noite. – Despediu-se Telmo.

- Boa noite rapazes! Tenham juízo.

Os três se afastaram até à entrada do olival. Mas Telmo parou, olhando para trás.

- Que grande mentiroso! – Sussurrou aos outros. – Que passeio tão estranho, não?

- Pessoal. Eu vou para casa. – Jeremias disse. – Isto é demasiados sustos para uma noite só! – Carlos e Telmo desataram às gargalhadas.

- Mas que raio és tu? Um gajo ou uma gaja? – Telmo deu-lhe uma cotovelada. – Carlos! Vamos continuar?

- Vamos! – Ele deu um sorriso sugestivo. – O que ele queria dizer com local perigoso?

De novo uma onda de latidos encheu a noite. A voz do senhor Carmo surgiu também, num conjunto de gritos imperceptíveis nas suas palavras.

- O que é que ele está a gritar? - Telmo estava assustado, mas uma excitação parecia encher os seus pequenos olhos negros.

- Não percebi nada. – Carlos procurava estar atento aos latidos, tentando perceber o que aqueles gritos diziam.

- Façam como quiserem. Tenham é cuidado. Até amanhã! – De passos apressados, mãos nos bolsos e gorro sob a cabeça, Jeremias afastou-se.

- Maricas! – Carlos disse, por entre os latidos ensurdecedores. – Hoje vamos apanhar o lobisomem.

Enfiaram-se pelo olival em direcção aos latidos e gritos do senhor Carmo. Mas, de repente cessaram. Carlos e Telmo entreolharam-se, ainda nenhum ruído era perceptível. Olharam em redor, tentando reconhecer onde estavam. Mas tudo lhes parecia igual. Carlos encontrou qualquer coisa no chão. Telmo ligou o isqueiro. Era parte da gabardine do Senhor Carmo. Estava toda rasgada e húmida.

- Ali! – Carlos apontou para uma das Oliveiras. – É o resto. – A outra parte da gabardine estava presa num dos ramos, também molhada. – O que é isto? – Carlos perguntou, esfregando algo pegajoso que tinha nos dedos. Levou os dedos ao nariz. Uma convulsão fê-lo curvar-se.

- O que foi? – Telmo perguntou.

- Isto é sangue! – Ele largou a gabardine. – Ainda está quente. – Telmo olhou para o chão, parecia que havia um pequeno rasto de sangue.

- Vamos! – Telmo sussurrou-lhe. Carlos não estava muito seguro, mas foi atrás dele. Andaram alguns minutos. Até que ouviram uma nova onda de latidos e rosnados, aproximando-se deles. Subiram uma Oliveira, tão rápido como nunca antes o tinham feito Desconfortavelmente agarrados aos ramos e indiferentes aos arranhões, eles olharam surpresos e chocados. Mesmo na sua frente, uma criatura enorme, de quatro patas passou a correr, num grito ensurdecedor, como se estivesse ferida. Atrás dela, vinha a matilha de cães, correndo que nem loucos, rosnando e ladrando. Uma perna de Carlos escorregou do ramo onde ele estava empoleirado. Telmo segurou-o pelo braço, puxando-o para junto de si. Nenhum dos quadrúpedes enfurecidos notou suas presenças. Ao fim de alguns segundos eles estavam sozinhos, os latidos afastavam-se.

- Viste o senhor Carmo? – Perguntou Carlos, sussurrando numa voz tremida. - O que era aquilo que vinha na frente da matilha?

- Eu…eu não sei, assustei-me assim que me apercebei que vinham para aqui e subi… - Telmo olhou-o para ele, com um sorriso triunfante. - Eu acho que era o nosso Lobisomem numa corrida nocturna. Ele estava ferido…

- Temos que ir embora! Já! – Carlos desceu a Oliveira. Telmo também. – Que merda! Para onde é o caminho de volta?

- Ali! – Telmo apontou e ambos correram na direcção, que era oposta à da matilha.

- Tens a certeza? – Carlos quase gritava agora.

- Sim! – Telmo disse. – Vê se te acalmas, génio! Se olhares para o céu e notares nas nuvens deste lado, há um reflexo amarelado. É das luzes!

Ambos correram o máximo que conseguiram, tropeçando por vezes em pedras ou torrões de terra mais salientes. Ao saltarem a vedação continuaram a correr até terem a certeza de que estavam seguros, dentro da vila.

- Meu! Nós vimo-lo mesmo! – Carlos falou. – O gajo quase se transformou debaixo dos nossos olhos!

- Eu sei. – Telmo tentava recuperar o fôlego. – Só é pena não termos trazido a gabardine ensanguentada. Isso seria uma boa prova.

- Temos a história. – Ele levantou um braço. – Olha só! Estou todo arrepiado.

- Eu sei. Também estou. – Deu um riso patético. - Isto foi brutal!

Dois rapazes satisfeitos por acreditarem que viram realmente algo que tornasse verosímil toda a história do Senhor Carmo. Tal como eles, vários grupos tiveram a mesma ideia, mas a maioria desistia assim que chegavam ao Olival. Outros que entraram no Olival, acabavam por perder-se e consequentemente perdiam o senhor Carmo de vista. Este foi o único caso em que havia um pouco para contar. Um novo ponto desta história.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A história do Lobisomem (part II)

Como bons curiosos, dotados de uma coragem timida, alguns adolescentes queriam testemunhar uma transformação ou, pelo menos, uma pequena prova visual de que o senhor Carmo era de facto um lobisomem. Assim, faziam-lhe esperas até que ele saísse de casa, para o seguir.

- Olha. – Disse uma rapariga. – Lá vem ele. – Tinha uma franja recta, sob seus grandes olhos azuis, tapando suas sobrancelhas, ainda se notava o seu olhar assustado e fixo no vulto negro. Agarrou o braço de Telmo, o seu namorado, estavam subidos num monte de lenha cortada, por detrás dos muros da casa do seu avô. Observando silenciosamente. Haviam mais três adolescentes a seu lado. A sua melhor amiga e mais dois rapazes, amigos dela e de Telmo.

- Vamos atrás dele. – Disse Telmo, saltando de cima da lenha e indo em direcção ao portão.

- Vocês têm a certeza de que querem fazer isto? – Perguntou Eliana, a outra rapariga. Descendo do monte de lenho com a ajuda de um dos rapazes.

- Claro. – Telmo bufou. – Achas que perderia a noite aqui parado para depois não fazermos nada? – Olhou para o senhor Carmo que desaparecia no fundo da rua. – Vamos. Ele está a ir embora.

- Catarina? – A ela apelou, olhando-a com medo.

- Não te preocupes, estamos com eles. Mesmo que as coisas corram para o torto estamos bem protegidas. – E lançou um sorriso amoroso para Telmo. Ele agarrou-a pela cintura.

- Disso, podes ter a certeza. – E deu-lhe um beijo sufocante.

- Opa! Deixem-se disso. Vamos mas é ao que interessa. – Disse o rapaz de cabelos loiros, começando a correr em direcção de onde tinha visto o último cão desaparecer,

Atravessaram a vila de um lado ao outro, sempre seguindo o Senhor Carmo, com apenas alguns metros de distância. Procuraram não falar, para não serem ouvidos. Quando entraram numa rua mais vazia, que na maioria era rodeada de Oliveiras e uma ou outra casa que surgiam de entre elas, o senhor Carmo desviou-se da estrada, enfiando-se no Olival.

- Ei! – Disse em voz baixa Telmo. – Vamos depressa antes que o percamos de vista. – Os cães começaram a ladrar. Catarina apertou-lhe o braço.

- É melhor não. – Ela disse. – Ali está muito escuro, nós não trouxemos lanternas, nem nada.

- É. E ali já não há ninguém que nos possa acudir se estivermos aflitos.

- O quê? – Disse Telmo. – Está uma Lua excelente, até conseguimos ver as nossas próprias sombras no chão. – Depois olhou com confiança para Eliana. – Não sejas tão insegura, nós também te protegemos. Mesmo que tu sejas uma chata.

- A mim não me apanhas tu no Olival. – Respondeu-lhe. – Isso já vai para além da minha curiosidade. – Depois olhou para o resto dos amigos. – Se calhar de vez em quando deveriam dar ouvidos a esta chata!

- Mais alguém se quer cortar? – Lamuriou Telmo. – Já falta pouco para vermos o que queremos. – Um uivo cortou o ar. Os cães começaram a ladrar desalmadamente. Catarina apertou o rosto contra o ombro de Telmo.

- Eu vou-me pisgar daqui para fora. Boa sorte com a vossa perseguição! – Eliana começou a correr em direcção à urbanização.

- Telmo. Vamos embora, por favor! – Disse Catarina quase histérica, com lágrimas nos olhos. Telmo olhou para os outros dois rapazes que estavam com eles. Ambos pareciam assustados. Ouviu-se um grito de desespero, carregado. Era o senhor Carmo. Catarina começou a puxar o braço de Telmo.

- Vamos mas é sair daqui para fora, depressa! – Catarina voltou a apelar a Telmo, dando outro puxão no seu braço, para que ele cedesse. Telmo suspirou de impaciência.

- Se quiseres podes ir ter com a Eliana. Eu vou continuar em frente. – Deu-lhe um beijo nos lábios. – Vemo-nos amanhã na escola! – E foi em direcção à entrada do olival, num passo apressado. – Vocês vêm? – Perguntou aos outros dois, que olhavam para ele abismados.

- Sim. – Disse o rapaz loiro, indo ter com ele.

- Esperem. – O outro rapaz acelerou numa corrida para os tentar alcançar. Catarina ficou por alguns segundos, vendo-os a afastar-se. Mas voltou para a aldeia, temendo por eles.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

1 ano de TDMN + A História Do Lobisomem

Este conto é baseado numa história verídica. Um momento de nostalgia para alguém que me é muito querido e que também tem as suas histórias (com qualidade) do passado para contar. As quais oiço com muita satisfação e carinho. Obrigada por as partilhares comigo.

Assim, em homenagem à minha mãe e suas memórias da infância, dedico-lhe este conto, adaptado e inspirado pela sua história.

Mas, também gostava de lembrar que hoje faz um ano em que decidi publicar a minha paixão. As minhas pequenas escritas, os contos da mente, que guardava no meu coração (computador), que com pouca gente compartilhava. Mas, neste mesmo, há um ano atrás surgiu uma nova porta, uma partilha que me deu uma nova dedicação para aqueles que aqui se perdem. Obrigada a todos os que visitam, comentam e que por aqui têm seguido. O TDMN irá continuar por um bom tempo, enquanto eu estiver por aqui. Com uma maior ou menor frequência, mas sempre por aqui.

Mas por agora, deixo-vos com este novo conto. Não se esqueçam de comentar. Bom ou mau, um comentário construtivo (ou não) é sempre uma mais valia.



Entre os murmúrios nocturnos e o sorriso gélido desenhado no céu, onde uma Lua em quarto minguante quebrava a escuridão do céu, havia uma linha ténue entre o real e a fantasia. Os seus olhos piscaram. Ele não conseguia acreditar na beleza que testemunhava. Como aquela luz suave iluminava os topos das árvores cobertos por uma fina camada de gelo. Sombras que dançavam ao sabor do vento, por entre muros e paredes vazias.

Seus pés afundavam na terra enlameada. Fazendo um “blok” sonoro ao se levantarem de novo. Ele gostava da noite. Gostava do ar tristonho que o Inverno trazia. Quase todos os dias aquele era o seu caminho. Sabendo que era observado por olhares curiosos. Ele procurava evitar que os seus cães ladrassem ou uivassem dentro da vila. O senhor Carmo liderava a saída. Preparado para o frio e mais uma noite, ralhando num tom brusco, quando algum dos seus cães ladrava.

Algum tempo depois de o Sol se deitar. Dos fundos de uma rua de casas antigas, era ele o homem cuja gabardina negra o diluía na noite, rodeado por uma matilha de criaturas esplendorosas, de puro-sangue, que deixava a sua moradia. Muitas caudas se agitavam, prevendo uma longa noite de diversão. Narizes húmidos cheirando cada poste ou parede, e uma ou outra pata alçada marcando o seu território.

Numa dessas maravilhosas noites de Inverno, daquelas em que o frio se torna mau companheiro, um grupo de adolescentes deambulava na rua, conversando alto e alegremente, tentando encontrar o caminho de volta para casa. Tocados pela bebida, olham-no com estranheza, desviando-se da matilha dos caçadores quadrúpedes, que infestam a rua com urina e alguns dejectos. O homem passa por eles sem nada lhes dizer, fechando a sua gabardina em redor do pescoço, carregando às costas uma mala comprida.

De olhos arregalados, os dois adolescentes testemunharam mais uma saída misteriosa do seu vizinho. Um homem que raramente sai de dia, vive rodeado da matilha de treze cães e que parece ter uma grande fortuna. Sai a altas horas da noite voltando apenas no outro dia de manhã., todo enlameado ou cheio de pó, ramos secos e outras imundices suspeitas.

Nunca ninguém falou com ele realmente. Uma conversa ou outra de ocasião e circunstância, mas nunca nada pessoal que lhe permita ter uma relação de amizade, ou, pelo menos, que permitisse às pessoas saber um pouco mais acerca dele. Muitas são as especulações da sua forma de sustentação:

“É filho de gente rica, não precisa de trabalhar.” Essa é a preferida dos populares. No entanto, há outras versões que incomodam as pessoas. Que estão na origem de um medo, que se propaga de mansinho pela população.

Matias e os seus amigos, são crianças de oito e nove anos que vivem na mesma rua que o Senhor Carmo. Cresceram a ouvir histórias fantásticas, sobre criaturas místicas e lendárias da sua terra. Brincam durante a tarde pela rua. E numa das partidas de futebol, utilizaram os portões da moradia do senhor Carmo como baliza. Mas, numa das investidas dignas de um jogador de futebol de tenra idade, passou os limites da entrada, caindo a bola junto ao enorme canil. Cães de raças puras, excelentes na arte da caça, ou na busca ou ataque à peça, ou até mesmo porque perseguem a presa, revelando o seu esconderijo ao dono. Ladraram furiosamente a Matias. Que tendo a bola na mão, corre em direcção ao portão. Mas um vislumbre junto à casa, fê-lo parar. O seu coração salta dolorosamente com o susto. Um enorme homem com capa negra levava qualquer coisa na mão. Entrou no pátio, deixando-se banhar pela tímida luz do sol que penetrava por entre as folhas do salgueiro-chorão. A cara manchada pela terra, o cabelo húmido escorrido em redor do rosto, roupas sujas e enlameadas com alguns rasgões e uns olhos profundos. Tão profundos que, por momentos, Matias pensou que olhava para um fantasma. Soltou um grito agudo, como uma menina assustada, largou a bola e correu até ao portão, assustando os seus amigos, que correram atrás dele, fugindo sem saber ao certo do quê. O homem olhou com tristeza para a bola que rebolou até aos seus pés.

- Que sorte a vossa. – Disse para os cães. – Parece que ganharam um brinquedo novo. – Baixou-se para pegar na bola e atirou-a para dentro do canil. – Mas agora está na hora de comer.

As crianças correram até aos contentores do lixo que se encontravam a meio da rua. Escondendo-se na parte de trás.

- Matias o que é que se passou? – Perguntou um dos rapazinhos, ainda recuperando o fôlego, com as mãos apoiadas nos joelhos.

- Eu vi o Lobisomem! – E espreitou, para ver se tinham sido seguidos. – Ele estava com as roupas rotas. Parecia mesmo que tinha acabado de se transformar em humano. – Ele disse com os olhos muito abertos, dando um ênfase exagerado no seu relato. – Ele é peludo e estava todo sujo.

- A minha avó disse que o ouviu ontem a passar lá à porta. – Disse outro rapaz, com uns óculos de lentes grossas. – Aposto que ontem saiu para se transformar e que quando o viste tinha acabado de voltar.

- Eu até deixei cair a bola. – Disse Matias.

- Nós calculámos. – Disse o rapaz que ainda se apoiava nos joelhos. Com a respiração mais normalizada. – Aposto que foi quando te ouvimos gritar.

- De início pensámos que tivesse sido uma rapariga. – Disse um outro rapaz, ruivo, fazendo com que os outros se rissem, ao se lembrarem.

- Eu gostava de vos ver frente a frente com o lobisomem. Aí, já não riam de certeza.

Marcados pelo sucedido. Matias e os amigos contaram a sua história aos colegas de escola, pais, professores, avós… a todos que falassem do assunto. Juntamente com a história dos bêbados e de outras pessoas que assistiram a situações insólitas por parte do senhor Carmo, depressa ele passou a ser conhecido como o Lobisomem. O misterioso homem com as barbas mal cortadas que saia todas as noites com a sua matilha de cães, vestindo roupas escuras, tornou-se um caso popular. O mistério que intrigava pessoas de todas as idades.

Continua...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um só olhar

Cegos são aqueles que se negam a ver.
Aqueles que se guiam pelo seu mundo,
Que se deixam levar pelo seu querer.
São aqueles que deixam de procurar lá bem no fundo.

Vêem o que lhes dá prazer, o que os fazem felizes,
Mas esquecessem do que há realmente para ver.
Dos pormenores que envolve todas as raízes,
Que perduram na essência do que é o ser.

Que perduram na essência da existência,
Cujos olhos terão que se esforçar para ver.
Toda a existência tem a sua magnificência,
Mas para a encontrar não basta querer.

Tantas são as incertezas e os medos,
Que todos acabam por ficar cegos.
Seguindo as rotinas e os credos,
Vêem só a superfície, esquecendo o resto.

A palavra envolve quase toda a comunicação,
Confundido por vezes a possível compreensão,
Que se estabelece simplesmente pela observação,
Numa transmissão de sentimentos e mensagens,
Que prevalecem na base de toda e qualquer relação.

Será difícil demonstrar que um só olhar,
Pode ter mais efeito que uma só palavra?
Para todos os sentimentos expressáveis,
Haverá uma única forma fiel de encontrar,
A possível e dolorosa expressão que amarga,
Embalada num mar de possibilidades amáveis.

sábado, 14 de agosto de 2010

Avé Metal

Imponente voz gutural,
Que soa por entre a multidão.
Compassada pela explosão,
Pelos estilhaços sonoros da bateria.
Junto ao grito da guitarra,
Tornando aquele momento imortal.
E o baixo? No seu rugido não submisso?
É a ilusão de que esta conjunção massacra,
Que não passa de mais uma obscura ironia.
E para aqueles que o acham um lixo?
O que importa os achares desses restantes,
Quando a sinfonia melancólica,
Ganha vida nos corações e mentes,
De toda a gente musicólica.



Ganha a palavra um novo significado,
Ganha timidamente uma vida audível.
Não importa se no final foi improvisado,
Mas sim, se foi tornada a paixão incrível.
A paixão que se satisfaz com o toque do som.
Que mergulha na consciência, atenuando o mundo,
Atenuando toda a dor e sacrifício,
Das exigências existenciais.
Porque não pode considerar-se bom?
Qual o mal de tocar o segredo profundo,
Revelar que ele não é um malefício?
É só mais uma chamada para os sentimentos reais.


É viver o momento com vontade.
Esquecer o peso da batalha diária.
Abrir os olhos para aquilo em que se perdia.
Abrir o coração para aquela realidade.


Batidas num peito fundidas com as baladas,
O uníssono de vozes tentando alcançar o céu.
Encontrar as suas almas há muito perdidas,
É como encontrar o tesouro debaixo de um véu.
Vibrações incessantes enfeitiçando suas vontades,
Fazendo sonhar mais alto, desejar torná-las reais.

 
O ultimo suspiro surge com o refrão,
Abafando, com peso, todo o ar,
Uma tristeza submersa por chegar,
Por chegar um até já, nas entrelinhas.
E como bons cidadão que são,
Quentes ficam os seus corações,
E voltam para as suas vidinhas.
Os fãs das pesadas emoções.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O castigo do Descrente

A profana voz da antiga besta adormecida,
Soou como o forte ribombar de uma derrocada.
Os ódios manifestos que se alimentam e crescem,
Nos corações e nas almas não só dos que progridem.

Venha a velha crença aturdi-los,
Venha a velha crença iludi-los.
Pois com toda a sua força perdida,
Tudo poderia recuperar, a iluminada,
Encher com toda a sua luz e esperança,
E toda a alma encher-se de bonança.

Os demónios tentadores do desassossego,
Os inimigos do raciocínio que impulsionam o ego.
Os que cegam a visão, os que lançam a ilusão.
Os que facilmente nos prendem na negação.

Onde encontram a coragem para nos guiar?
Como conseguem eles tanto nos ludibriar?
Marcham no exército da decapitação,
Onde, facilmente, nossa mente carregarão.

Tão negro soam os seus passos,
Porque de negro vão carregados.
Tenta nos afastar da devassidão,
Mas com a verdade todos lá cairão.

É essa a fé que move montanhas,
Mas sem ela mover-se-ão na mesma.
Um passo mais próximo do real,
Fugindo para longe das façanhas,
Para longe da maldita blasfémia.
Para longe da centelha celestial.

Julgados pelos desencantamentos,
Sentenciados com os afastamentos.
Seguidores de caminhos diferentes,
Castigados, por sua mente, sofredores.

sábado, 17 de julho de 2010

O Anjo Silenciador

O silêncio ensurdecedor alcançou-me.
Ela usa as vestes do sonho,
Com um sussurro ela vai iludir-me,
E me deixar morrer no enfadonho.

As vozes humanas da minha vida,
Se perdem no desmoronar sereno,
Para me lançarem na sua ferida,
Para me afogar no seu negro terreno.

O vento sonolento nada me diz,
Sou só mais uma mera infeliz.
Que com alma se deixou levar,
Que pelos segredos se deixou amar.

Venha ela calma e galante,
A eterna e apaziguadora,
Do nada, pura amante,
Da vida, talvez, uma mentora.

Não é o foice que corta,
Não é um beijo que sela,
Mas o frio que me faz morta,
É a morte, senhora e bela.
Das almas detentora,
Até ao fim, cumpridora.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Para o músico...


Sabes quanta dor mergulhou no meu peito?
Sabes quantas paixões ferveram no meu peito?
Sabes quantas desilusões me acordaram?
Sabes quantas alegrias me iludiram?




Vidas que palpitam sobre as tuas pautas,
Histórias partilhadas quando as cantas.
Dedicação para ti é escrever uma canção,
É escolher os dedos com que formas a ilusão.




És indiferente à vida, indiferente a mim,
Sentes o timbre vibrar pelos teus ouvidos,
Sabes que isso sim, poderá ter um fim,
Mas esqueces que na relação estamos perdidos.


Nas folhas em que escreves,
As notas que te tocam,
Nem sempre são livres e leves,
Elas prendem tudo aquilo que evocam.




Dizes-me que a fizeste numa flor.
Para afastar toda aquela dor.
Todo o peso que elas contêm,
Fazem-nos querer ir mais além.

domingo, 6 de junho de 2010

Sobrevivência

Uma espreitadela curiosa nesse novo mundo,
Coloca uma lágrima perdida no teu rosto.
Caindo para um grande abismo sem fundo,
Chorando pelo dia em que se perdeu todo o seu gosto.

Um coração imóvel, bloqueado pelos espinhos,
Que perfuram cada linha, cada traço de tecido.
Afinal, és tu e teu coração, ambos sozinhos,
Mas desta vez, tu não te encontras perdido.

Uma nova batalha se ergue na tua frente,
Cuja sobrevivência será a única regra.
E qualquer espada afiada que te faça frente,
Irá provar o sabor da derradeira perda.

Assim se faz um sobrevivente,
Assim se mancha a humanidade,
Cuja principal necessidade se tornou evidente,
Para, no mínimo, se conseguir alguma longevidade.

domingo, 23 de maio de 2010

Emancipação

Flui em mim a energia outrora conjugada,
Banhada pela luz da Lua,
Numa vitória classificada como ousada,
Mas que jamais será tua.

Junto das criaturas solitárias,
Eu esqueci as minhas origens,
Julgada pelo abandono,
Ali as encontrei, as energias.
Como se fossem puramente virgens,
Oferecendo-me o seu trono.

Com a vibração da Terra,
Com a mente cheia de conforto,
Olhei em redor, para as pedras,
E vi que nada estava morto.

Tudo emanava a sua própria energia,
Todos os seres e pedaços tinham um calor próprio.
Senti uma enorme alegria,
Porque aquela noite, nada tinha de sombrio.

Corri pelo meio da ceara recém-nascida.
Senti-me como uma criança inconsciente,
Perdida naquela imensa corrida,
Desejando que não fosse uma ilusão da mente.

O vento passou pelos meus cabelos,
Agitando-os ao seu sabor.
Agradável fervor, que não vou perdê-lo.
Como um formigueiro, como um calor.

Conheci assim esta outra realidade,
À qual me dedico com lealdade.
Não procuro afectar ninguém,
Apenas explorar as minhas opções,
E dar resposta às minhas questões.